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20 mai 2009

Depilar ou não depilar?: o eterno debate

A favor ou contra a depilação íntima? Durante séculos, esta questão levanta controvérsias.  Há os pró-peludo(a)s, que exigem o regresso dos valores sólidos e os pró-carecas, que preferem a “liberdade”. Entre eles, existem observadores como Jean da Silva. 

depilaçao

Atualmente a maioria das mulheres ocidentais pensam que é preciso depilar em parte ou totalmente as partes genitais (1).  Muitas delas (45%) pensam que os homens deveriam fazer a mesma coisa. No entanto, há pouco menos de dez anos, essas práticas eram vistas com tamanha desconfiança que algumas esteticistas recusavam fazer depilações masculinas ou atender mulheres que desejavam depilar o ânus.

depilaçao1

A desconfiança com relação à depilação continua. Em 2007 as reações geradas em torno da comercialização de navalhas elétricas para uso íntimo masculino testemunham que a incrível “inquietude”, ou preocupação, com relação a essa prática é, portanto, generalizada.

Em seu ensaio Du velu au lisse (história e estética da depilação íntima),   Jean da Silva explica:  “Ao perturbar a ordem distintiva dos gêneros e o esquema segundo o qual o homem é reconhecido como “cabeludo”  e a mulher como “lisa”, a depilação é vista muitas vezes como um ataque antropológico e cultural, e como um costume avaliado tanto negativamente, assinalando um desvio de conduta, quanto positivamente,   assinalando a liberdade dos corpos.”

As opiniões sobre a depilação são extremamente estereotipadas. É bem provável que este artigo apresente comentários que reproduzem certas posições típicas do nosso repertório enumeradas por Jean da Silva como os mais representativos das tendências de nossa sociedade. Bem, evidentemente, são pontos de vista contrários.  Temos os a favor e os contra (como se fosse obrigatório ser contra ou a favor de uma prática que faz parte de uma escolha individual e um gosto pessoal).

Primeira reação típica, a da anti-consumista:  “Há evidentemente bastante dinheiro em nosso país e não temos outra coisa para fazer”. Segunda reação: hedonista “Eu aconselho a depilação íntima. A gente se sente bem, refrescante. Terceira reação, cínica e desiludida: “Nós estamos em uma cidade que não tem nada para fazer além de depilar os pêlos pubianos”. Quarta reação, nostálgica (cheirando a homofobia e misoginia):  “Eu não apóio esta tendência andrógena(…): nossa sociedade tem mesmo que reparar”. Quinta reação, não muito diferente da quarta, mas menos pujante, é aquela que vê na depilação uma aparência da estética difundida por filmes pornôs: “Essas são as consequências de assistir filmes pornôs na adolescência.”

Para resumir, de maneira um pouco grotesca: “Então, se eu compreendo bem: a virilidade, os pêlos aos héteros – os verdadeiros, os duros, os machos – e os corpos lisos, as “barbas feitas” aos homos (ou aos efeminados)?

Parece, com efeito, que todo o debate sobre os pêlos se resume a esta oposição estreitamente binária feminino-masculino. O pior é que este debate está em curso há séculos. Na antiguidade, Plínio já acreditava que o que “pervertia a moral do Império”, são essas “unções de cera e óleo”, esses “banhos quentes”, essas “depilações efeminadas”. Julio César  foi altamente criticado por seu gesto afetado – ele não só deixou-se cortar e se raspar, mas também de deixou depilar. (Suetno, La vide dês 12 Césars.). O poeta satirista Martial usa a mesmo em seus versos ácidos : 

“Quando você depila seu peito / Quando você raspe suas pernas e seus braços / E os cabelos em torno do seu pênis / Claro, Florent, você pensa em sua mulher/ Mas em que pensa você, quando depila o cú? “

Como vemos: os discursos contra a depilação íntima sao constantes e se repetem por toda a história. Repetitivos e virulentos. 

Tratando deste assunto delicado com pinceladas eruditas, Jean da Silva consagra à depilação um livro cheio até a borda de anedotas históricas surpreendentes. Ele remete sempre, ao drama e acumula uma soma de informações surpreendentes sobre esta prática secreta. Você sabia que Pierre Louys tem um livro consagrado à depilação das mulheres de todo o mundo, observando com surpresa o sexo coberto e cabeludo das prostitutas japonesas de Nankin? E que do XIII ao XVI século, as mulheres deviam ter uma “sala de Vênus  imaculada”, sem “nenhuma teia de aranha” ao redor? (…).

A história mais inacreditável é a do crítico de arte inglês Ruskin, célebre por ter defendido os artistas pré-rafaelitas. Quando ele casou-se com a bela Effie Gray em 1848, Ruskin era virgem. Ele jamais havia visto uma mulher nua, a não em forma de estátua. Na noite de núpcias, ele ficou horrorizado por não encontrar, entre as pernas de sua esposa a semelhança com as estátuas de mármore que ele esperava. Isso estragou seu casamento. Seis anos depois, Effie Gray pede o divórcio alegando que o motivo era ainda estar virgem. Em uma carta escrita para uma amiga, Effie conta a humilhação atroz que representou para ela um exame ginecológico: ela receava deixar que vissem a monstruosa deformidade que ela acreditava possuir. Seu marido a havia convencido que seus pêlos faziam dela um monstro.

Du Velu au Lisse (histoire et esthétique de l’épilation intime), de Jean Da Silva, éd. Complexe.

(1)   Em 2006, uma empresa de produtos cosméticos encomendou um estudo ao Instituto  Ipsos, para saber “a opinião, atitudes e comportamentos dos franceses sobre a depilação”. Esta enquête estabeleceu que 73% das mulheres com menos de 26 anos se depilavam contra somente 50% depois de 26 anos, e que 76% das mulheres consideram que a depilação é um critério de sedução, opinião compartilhada pelos homens que topariam realizar uma depilação se sua companheira pedisse – com uma pequena diferença segundo a idade:  82% para os jovens e 42% dos mais velhos. Dois anos atrás um estudo americano estabeleceu que “quase a totalidade das mulheres depilam as axilas e as pernas. Três de cada quatro mulheres depilam as partes genitais (75%). Quanto aos homens, mais da metade deles (57%) depilam as partes genitais.”

Artigo de Agnès Giard, traduzido livremente do francês por Julia Tenório. 
Imagens de Merkley

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20 maio, 2009 em 18:03 porJulia Tenório

Tags: ânus, axilas, cabeludos, depilaçao, Jean_da_Silva, lisos, pernas
Publicado em Curiosidades/Notícias | 2 Comments »

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