Desejo e Mentira
Se a menção “Não mentirás!” faz parte dos dez mandamentos, é necessário admitir que hoje em dia mentir é produzir ficção, e produzir ficção é fazer funcionar a máquina das fantasias. Desejo e mentira travam, assim, uma estreita relação.

Que mentimos ao nosso parceiro, que mentimos para nós mesmos, ou ainda, que utilizamos a mentira como trunfo social, e que as pequenas mentiras possuem um lugar em nosso cotidiano afetivo, é inegável.
O dicionário dá a seguinte definição para o termo: “A mentira é a declaração deliberada de um ato contrário à verdade, ou ainda a dissimulação da verdade, a mentira por omissão”.
A mentira é uma forma de manipulação, que também produz desejo. O filósofo Bernard Stielgler em “Amar, se amar, nos amar”, considera que a mentira é a pedra fundadora da sociedade. Não seria a pedra fundadora do casal?
Para a psicanálise, o desejo participa da elaboração da mentira. Porque o desejo não pode ser transmitido a não ser pelo artifício da palavra, (palavras doces sussurradas no ouvido, declaração impetuosa, palavras sugestivas…) o desejo está exposto a não ser traduzido em toda sua autenticidade, com todas as implicações que isso acarreta. O desejo tem algo de tão forte e angustiante, flerta com uma sorte de interditos, de tabus, que ele não poderia ser verbalizado em sua totalidade.
Assim, comunicar o seu desejo é falsificá-lo, é prepará-lo para expô-lo, de modo objetivo e modificado, para que o outro o aceite. Não se diz a verdade sobre o desejo. A mentira é uma forma de revelar algo de nós mesmos, preservando simultaneamente as áreas mais escuras, que os outros não compreendem, não aceitam. As zonas cinzas em que preferimos negar o acesso do outro. Uma maneira de apresentar-nos em nossa melhor forma. Saber mentir sabiamente é também uma forma de se preservar.
” Na raiz da mentira se encontra a imagem idealizada que fazemos de nós mesmos e que queremos apresentar aos outros.” (Anaïs Nin, Journal)
A mentira social
Mentir sobre suas conquistas é comum para as todas as pessoas. Os homens mentem, acrescentando ( mais conquistas, mais orgasmos, mais freqüência de relações…), no que diz respeito às mulheres é o inverso (com algumas raras exceções). Quanto menos os outros sabem mais sua liberdade aumenta. O que isso revela sobre nossa sociedade? que ela evolui mais rápido do que as pessoas que a compõe. Que nós não atingimos ainda o grau de liberalização dos costumes. Os discursos exibidos diariamente pela imprensa, mídia, revistas femininas, carregam a imagem totêmica de uma mulher liberal, totalmente sem complexos, de uma mulher que devemos desejar ser, fantasiar.
Na realidade, as mulheres têm a tendência de se manter mais discreta no que diz respeito a sua vida, para se preservar dos julgamentos menos gratificantes para ela do que para os homens. Ainda estamos hoje presos a velhos esquemas afetivos: o homem viril que produz maiores conquistas é um clichê super valorizado. Quanto à mulher “como ela dever ser” é mais frequentemente aquela que se casa e funda uma família, no que diz respeito à opinião pública.
Peggy Sastre nos fala em seu livro Ex Útero, para terminar com o feminismo. Ela explica que , apesar do discurso atual, as mulheres diferem dos homens, eles não têm o mesmo corpo e isso implica em diferenças notáveis. “Elas possuem um corpo com um historia biológica, evolutiva e cultural diferenciada, com significações e símbolos outros, enraizados na matriz específica de um sexo originalmente feito para assegurar a reprodução da espécie.” Efetivamente, entre os homens, prazer e reprodução sempre foram claramente diferenciados, enquanto que as mulheres há muito tempo são reduzidas psico e fisiologicamente ao seu sexo e sua função reprodutiva.
O prazer da mulher é tema de preocupação relativamente recente e nem sempre geral! Portanto, há uma diferença entre uma sociedade utópica descomplixada e uma pressão histórica ainda fortemente influente. Se mentir pode representar uma etapa anterior à transformação real das mentalidades, porque não resolver o problema de aplicação dessas mudanças na realidade?”
Mentira e casal
“Todos os humanos mentem ao menos duas vezes por dia”, afirma Claudine Biland em sua obra Psicologia do mentiroso. Ela precisa que a mentira é parte integrante de qualquer início de relação, qualquer um procura se valorizar para suscitar o desejo do outro, para lhe atiçar, para excitar também. É evidente que todos mentimos ao nosso parceiro, em um ou outro momento; mentimos sobre a intensidade do prazer obtido, sobre nossa liberação sexual, sobre nossa abertura de espírito, sobre nosso emprego do tempo, sobre os jogos de sedução com outros homens… Jacques Bourbon Busset em O amor durável, afirma que toda relação conjugal profunda deve comportar, pelo respeito ao outro, esse tipo de mentira oficial que, longe de constituir uma injúria ou insulto ao outro, poupa-lhe, ao contrário, das conseqüências não significativas de uma baixa momentânea de seus sentimentos. Compartilhar com o outro destas queda de sentimento passageira, seria também uma ilusão transitória, uma vez que isso não é representativo de todo o tempo da relação.
“A verdade é um símbolo que funciona para os matemáticos e filósofos. Nas relações humanas, bondades e mentiras são melhores do que mil verdades.” ( Graham Greene, o cerne da questão).
Nós não podemos impedir-nos de nos valorizar, de fantasiar sobre nosso parceiro, de nos inventar histórias e cenários eróticos para estimular nosso desejo, fazendo-o acreditar, e fazendo-nos acreditar também, que somos cortejados por outros parceiros afim de melhor revelar o entusiasmo mútuo, descoberto por uns pelo ciúme e por outros pela proibição. Nao podemos nos impedir de mentir, ainda, quando, envoltos pelo cotidiano, sonhamos com outra pessoa para obter um orgasmo. A mentira ao outro tem muitas facetas, mas em todo caso, nos permite sublimar o outro e a nós mesmos.
Mentir para si mesmo
Para assegurar o efeito que desejamos produzir em nosso parceiro, nós estamos prontos a nos cobrir com outra roupagem. Mais sensual, mais audaciosa, sob as quais nos atreveríamos a coisas que não pensamos ser capazes de ousar. Nos maquiamos, usamos cremes anti-rugas, usamos sapatos de salto alto, sutiãs que evidenciam os seios, alisamos os cabelos encaracolados… E tantos outros subterfúgios que permitem assumir o papel de fêmea fatal… E porque não tornar-se uma? Um arsenal de sedução que permite se concentrar em você mesmo, se auto-erotizar, se fantasiar e se preparar para o prazer com o outro. É uma maneira de se liberar das amarras: “porque eu estou maquiada não sou realmente eu, mas a minha criação. essa mulher sublime que seduz e joga com seu poder de atração sobre os outros”. E essa mulher pode, ainda, se permitir obter e dar prazer ao outro.
No entanto, mentir na cama pensando que está mentindo ao outro é mentir a si mesmo. Dizer que tivemos prazer quando não tivemos, é a melhorar maneira de cair em sua própria mentira. Em contraste, miados, gemidos e outros gritos de prazer estimulam mesmo quando são um pouco exagerados.
No começo de uma relação sexual, em particular quando se é jovem, temos dúvidas de nós mesmos, de nosso desejo e do que desperta o desejo no outro: será que faço sexo oral já? será que me deixo sodomizar? o que o outro vai pensar de mim se eu fizer? Mesmo, e principalmente, quando você quer, você tem medo do julgamento do outro, medo de ser (ou de não ser) uma mulher que gosta do prazer. Sentimo-nos menos mal se pensarmos que o outro também tem dúvidas.
(…) A espontaneidade sexual, a aceitação de seu desejo vem geralmente com a idade e é também por essa razão que alguns sexólogos dizem que as mulheres conhecem melhor o orgasmo depois dos 30 anos. E, é por isso também que alguns homens preferem a companhia das mulheres mais maduras, que não tendo nada a provar, assumem seu desejo. [será?]
Mentir não é jogar?
Para obter um lugar reconhecido em nossa representação social, e também para fazer calar nossos desejos frente às normas, podemos nos distanciar de nosso nós mesmos e não reconhecer quais são nossos desejos. Se travestir, jogar consigo mesmo e com o outro, permitir-se a experiência do prazer, sim! Mas essa farsa não deve tornar-se um impedimento para o gozo. Questão delicada que é preciso saber dosar sabiamente, com os melhores ingredientes para compor este filtro deliciosamente subversivo: o do prazer.
Artigo de Saskia Farber, traduzido livremente para o português, por Julia Tenório.
