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16 jul 2009

A liberdade sexual a inventar

diversidade

Sexo é política

A história e o desenvolviemento da liberação sexual nos dias atuais demonstram que a sexualidade concentra um número importante de problemas sociais. Sobre ela se cristalizam as relações de força entre diferentes grupos sociais, os interesses de poder de uns e a submissão de outros  à ordem sexual dominante, os medos ancestrais e as questões de ética na atualidade.

Porque carrega uma variedade de idéias e possui uma dinâmica social considerável, a sexualidade não foi,  jamais, negligenciada pelo poder.  Ela é por sua vez o laboratório por onde passam e se experimentam as idéias religiosas, científicas, revolucionárias, sendo o coração do controle do corpo social e de seus destinatários, regulados justamente por sua carne. Através dela se define a vida, a liberdade e o destino – da ordem social – de alguns humanos. Assim, toda a escolha em matéria de sexualidade será política.

É preciso ter consciência do fato de que quando tomamos uma decisão, que uma decisão é tomada pelo Estado, para nós ou para um grupo. Com efeito, toda novidade exige uma medida de ordem, ainda que o sexo não conheça a ordem. Para o romancista Jeanne de Berg, que realizou sátira de quase todas as categorias sociais, “qualquer pessoa pode ter qualquer fantasia”. Assim, todo rótulo, toda etiqueta moral ou legal não poderá ser mais do que um artifício prático. Aprofundando ainda mais esse raciocínio, John B. Root, produtor de filmes pornôs, afirma  que “o sexo é anarquista. Seja você um alto executivo da Airbus, ministro ou proletário, você tem um pênis nas mãos”. Avisa!

Não estamos sós!

No mundo ocidental e liberal, apesar das resoluções modernas só podemos ser “heterossexual, masculino e procriador” (mas igualmente “branco” e “crente”…), não estamos vivendo sozinhos uma liberdade sexual paradoxal, também não estamos errados de nos interessar pelo caso das mulheres. Todos os indivíduos que não se enquadram 100% no modelo sexual ordenado nas sociedades atuais,  sofrem pressões para um fim ou outro em sua vida.

Um homem que não deseja o poder (mulheres! dinheiro! Prestígio!)  é visto com suspeita aos olhos dos heróis da sexualidade normal, como também é uma mulher que não tem o desejo de ser mãe. Quem não tem um amigo cuja vitalidade e carisma é negado por outros, homens e mulheres, sob o pretexto de que ele tem “um ar um pouco gay” ou ainda “porque ele não tem “bolas” ? (…)

As pessoas que se encaixam no top 10 das relações sexuais aceitas pela ordem vigente não têm necessariamente consciência  de que obedecem um esquema que oprime os demais. Eles certamente não se questionam sobre uma melhor forma de embarcar com todas as formas de sexualidade rumo a outro modo de viver juntos.  [Não se trata de criar desculpas para todos os erros e atividades] (…), mas de começar a propor novas compatibilidades de relação, mais originais, de acordo com nossos desejos e o dos outros, distante de um pensamento do tipo “universalista” ou “essencialista”. Aí, diríamos, que não seria uma mulher, não seria um homem, mas uma multidão de seres singulares desejosos de viver sua sexualidade com igualdade e com o respeito dos outros.

Quanto mais somos desclassificados… mais podemos jogar livremente!

O termo queer, que significa literalmente “estranho”, “bizarro” (empregado inicialmente para designar os gays) é de acordo com os estudos dos gêneros, sobretudo nos Estados Unidos, um conceito que define todos os indivíduos que não se encontram no modelo heterocentrado, branco, dominante. Sejam eles homens, mulheres, homossexuais, ou os próprio heterossexuais!  E, se as mulheres estão incluídas nesses estudos - que a inserem no grupo das sexualidades “oprimidas” -  é porque, para o pensamento queer, uma mulher não é nunca somente uma mulher, ou uma figura única, ela tem uma cor, um estatuto social, uma religião.

Portanto, nenhuma emancipação será totalmente feliz se considerar importante somente os critérios biológicos. Assim, um dos obstáculos à igualdade entre as sexualidades hoje não está somente na diferença dos sexos – homem contra mulher – mas sobretudo na crise dos gêneros – masculino e feminino.

Esses dois costumes colados aos nossos sexos biológicos nos impedem de nos obedecer nossos desejos, de criar livremente nossos comportamentos sexuais. Com efeito, apesar da abertura real da definição do “bom sexo” depois do último século, o “bom gênero” continua exercendo uma lei muito estrita: é sempre melhor se comportar como “uma mulher” quando nascemos “uma mulher”, e o inverso para os homens.

As combinações identitárias que se afastem da regra de correspondência entre a “etiqueta” e os dados “de nascimento” tem, portanto,  grandes chances de serem apontados ou mal vistas.

É difícil ser “feminino” quando se é “homem”,  mas também “punk” quando se é  “negro” ou “muçulmano” quando se é “branco”.

Em outras palavras, é difícil inventar-se ainda mais quando por todos os lados os discursos nos convidam!

A teórica queer Judith Butler imagina um mundo no qual nos poderíamos “adotar” um dia um gênero sexual, um dia outro, como uma caixa de ferramentas. Finalmente, quando compreendermos que nossa identidade sexual é uma construção social, que compreendermos que nos apresentamos em público e em particular como em um ato de teatro, poderemos criar para nós outras faces individuais que não aquelas que crêem ser determinada pela  natureza para os e para os outros.

E para continuar a se desenvolver física e socialmente, nada melhor que tornar flexíveis as idéias em seu espírito… Esses não são, portanto os meios que faltam!

Internet, laboratório virtual da sexualidade?

Embora o discurso tem por vezes a tendência de demonizar a inundação do sexo na internet (a rede do mal!) Katrien Jacobs, pesquisadora de mídias digitais e sexualidade, convida a tomar a virtualidade em um sentido mais de transposição. Em uma entrevista concedida ao site do jornal Liberation, ela argumenta que os sites oferecem encantadoramente “uma variedade de educação sexual inofensiva” aos internautas, aqueles que permanecem presos na “realidade” são apenas uma minoria.

Na verdade, hoje estamos a apenas um clique de dados sobre todos os tipos de sexualidades, podemos abrir janelas sobre  universos eróticos múltiplos e improváveis, nos divertir, nos inspirar, em um ambiente por vezes pessoal como os blogs. Tudo, sem que haja realmente um intermediário entre nós e os sites visitados, ninguém para orientar e guiar nossa curiosidade errante senão nós mesmos. E a curiosidade não é necessariamente “desviante”! Igualmente, as relações virtuais, os chats ou os jogos em rede, não são necessariamente “pobres”. Segundo Katrien Jacobs, elas podem ao contrário se mostrar muito criativas.

Graças ao anonimato e a distancia corporal, os internautas podem desenvolver personalidades originais sem medo, experimentas diferentes tipos de relações entre eles, ignorar ou não os códigos usuais, recriar sem cessar a troca. E não, o virtual não substitui, em ultima instância, a vida real! Portanto, em vez de pensar virtualidade e realidade como dois espaços verdadeiramente separados, podemos considerar que os dois se enriquecem mutuamente. Certamente, tudo que se propor na virtualidade não nos interessa mais do que o que nos propõe a realidade. Diante da quantidade de informações e experiências propostas, cada um deverá selecionar e fazer sua triagem. (…)

Portanto, longe de ser um fim em si mesmo, o domínio virtual poderá ser pensado como um espaço transitório, sem partição ou substância, a partir do qual seria possível mover os muros de nosso próprio cérebro no que diz respeito à sexualidade.

Meu espírito livre em um corpo livre

Na sexualidade, parece vital negar os dogmas, as idéias preconceituosas, para o bem de meios que permitam formas de vida particulares. Porque a sexualidade é dinâmica, viva, é bom saber sempre como aprender e desaprender sobre ela. As pistas que seguimos nos últimos anos são apenas algumas entre muitos outros já existentes ou inventados, servem para demonstrar os modos de abertura, tanto do espírito quanto do corpo. Não precisa ser psicólogo para saber que o desenvolvimento de cada uma exige a harmonia entre dois.

Terminamos com uma citação de um recorte do Anti-manual da educação sexual, fonte do artigo, que, como sugere seu título, busca fornecer chaves para se viver e pensar em sexo, em vez de dar respostas definitivas sobre o assunto: ”

“Quando nos arriscamos para além dos prejulgamentos, melhor saber cultivar sua inteligência e manter afiado seu espírito crítico. Se tal não acontecer, teremos a sensação de ter ido longe demais, de termos sido levados por forças obscuras e condenáveis ou de termos sido abusados pelos outros. A inteligência, ao contrário, permite sustentar a coragem e a motivação necessárias para fazer um esforço e construir novos argumentos, a inventar novas idéias, a talhar novos pensamentos.”

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Fragmentos do artigo La Liberté sexuelle à inventer, de Maxine Lerret, traduzido livremente do francês por Julia Tenório.

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