
Sexo é política
A história e o desenvolviemento da liberação sexual nos dias atuais demonstram que a sexualidade concentra um número importante de problemas sociais. Sobre ela se cristalizam as relações de força entre diferentes grupos sociais, os interesses de poder de uns e a submissão de outros à ordem sexual dominante, os medos ancestrais e as questões de ética na atualidade.
Porque carrega uma variedade de idéias e possui uma dinâmica social considerável, a sexualidade não foi, jamais, negligenciada pelo poder. Ela é por sua vez o laboratório por onde passam e se experimentam as idéias religiosas, científicas, revolucionárias, sendo o coração do controle do corpo social e de seus destinatários, regulados justamente por sua carne. Através dela se define a vida, a liberdade e o destino – da ordem social – de alguns humanos. Assim, toda a escolha em matéria de sexualidade será política.
É preciso ter consciência do fato de que quando tomamos uma decisão, que uma decisão é tomada pelo Estado, para nós ou para um grupo. Com efeito, toda novidade exige uma medida de ordem, ainda que o sexo não conheça a ordem. Para o romancista Jeanne de Berg, que realizou sátira de quase todas as categorias sociais, “qualquer pessoa pode ter qualquer fantasia”. Assim, todo rótulo, toda etiqueta moral ou legal não poderá ser mais do que um artifício prático. Aprofundando ainda mais esse raciocínio, John B. Root, produtor de filmes pornôs, afirma que “o sexo é anarquista. Seja você um alto executivo da Airbus, ministro ou proletário, você tem um pênis nas mãos”. Avisa!
Não estamos sós!
No mundo ocidental e liberal, apesar das resoluções modernas só podemos ser “heterossexual, masculino e procriador” (mas igualmente “branco” e “crente”…), não estamos vivendo sozinhos uma liberdade sexual paradoxal, também não estamos errados de nos interessar pelo caso das mulheres. Todos os indivíduos que não se enquadram 100% no modelo sexual ordenado nas sociedades atuais, sofrem pressões para um fim ou outro em sua vida.
Um homem que não deseja o poder (mulheres! dinheiro! Prestígio!) é visto com suspeita aos olhos dos heróis da sexualidade normal, como também é uma mulher que não tem o desejo de ser mãe. Quem não tem um amigo cuja vitalidade e carisma é negado por outros, homens e mulheres, sob o pretexto de que ele tem “um ar um pouco gay” ou ainda “porque ele não tem “bolas” ? (…)
As pessoas que se encaixam no top 10 das relações sexuais aceitas pela ordem vigente não têm necessariamente consciência de que obedecem um esquema que oprime os demais. Eles certamente não se questionam sobre uma melhor forma de embarcar com todas as formas de sexualidade rumo a outro modo de viver juntos. [Não se trata de criar desculpas para todos os erros e atividades] (…), mas de começar a propor novas compatibilidades de relação, mais originais, de acordo com nossos desejos e o dos outros, distante de um pensamento do tipo “universalista” ou “essencialista”. Aí, diríamos, que não seria uma mulher, não seria um homem, mas uma multidão de seres singulares desejosos de viver sua sexualidade com igualdade e com o respeito dos outros.
Quanto mais somos desclassificados… mais podemos jogar livremente!
O termo queer, que significa literalmente “estranho”, “bizarro” (empregado inicialmente para designar os gays) é de acordo com os estudos dos gêneros, sobretudo nos Estados Unidos, um conceito que define todos os indivíduos que não se encontram no modelo heterocentrado, branco, dominante. Sejam eles homens, mulheres, homossexuais, ou os próprio heterossexuais! E, se as mulheres estão incluídas nesses estudos – que a inserem no grupo das sexualidades “oprimidas” – é porque, para o pensamento queer, uma mulher não é nunca somente uma mulher, ou uma figura única, ela tem uma cor, um estatuto social, uma religião. read more »