Somos todos cyborgs?
Alguns sexólogos afirmam que os vibradores podem viciar. O artista francês Yann Minh participa, em 30 de setembro, de um colóquio sobre o fenômeno “narcose narcísica” provocada pelo uso, entre outras coisas, das máquinas de sexo.
Então, o que será? adicção ou exploração?
Em Nancy, no mês de Outubro, robôs de sexo e humanos portadores de implantes fálicos passam um final de semana no Festival Internacional de Body Arte, que ocorre no chamado T.O.T.E.M. Souterrain Porte V, dança, espetáculos de rua, concerto e noites de fetiches sobre o tema dos híbridos homens-máquinas. “Nós somos todos híbridos”, explicam os programadores. “Quando o primeiro homem levantou seu primeiro osso para o céu, ele brandiu sua primeira prótese. As armas são próteses. Os brinquedos são próteses. Não sabemos nem mesmo qual deles veio primeiro. Armas ou vibradores?”
Para Yann Minh, artista ciber-punk e criador do “nooscaphe” (uma máquina de beijo imersiva), é o brinquedo erótico que inaugura a era dos humanos sobre a terra. “Me parece certo que os primeiro objetos humanos não foram as facas ou os martelos de madeira como nos contam na escola, mas sim os brinquedos eróticos… que foram progressivamente se transformando em armas, por projeção sexual metafórica.”
Segundo crê Yann Minh, os antropólogos - “sobretudo os católicos” - ocultaram conscientemente a importância do prazer sexual em nossos estudos sobre a humanidade primitiva, para privilegiar as noções de culto à fecundidade.
“Portanto os objetos ditos itifálicos, e as representações sexuais explícitas (…) apareceram ao mesmo tempo que os demais objetos, e não é possível até o momento determinar a anterioridade de uns sobre os outros…há grandes chances, no meu ponto de vista, que o primeiro objeto inventado pela humanidade, agora ancestral da máquina, tenha sido um vibrador, e que foi uma mulher que o inventou.” Diz, Yann Minh
Pode parecer bobagem afirmar que nossos ancestrais tenham desenhado objetos eróticos. Imaginamos que eles tinham coisa melhor a fazer: colher, caçar, pescar, lutar, matar. Sobreviver, afinal. Mas o exame dos objetos primitivos mostra que os homens da pré-história passavam muito tempo talhando, pintando, lixando e polindo objetos de formas arredondadas, em longas noites ao redor chamas de um fogo crepitante.
Mesmo a invenção do fogo testemunha a atenção e paciência em observar os movimentos de vai e vem. “O amor é a primeira hipótese cientifica para a reprodução objetiva do fogo.” diz Bachelard (A psicanálise do fogo). Imitando o ato primordial, nossos ancestrais esfregaram os materiais, até que eles ficassem brilhantes, doces, lisos e penetrantes. Até que eles coubessem na palma da mão e representassem simbolicamente seus corpos (…)
Em “L’amour des gadgets, Narcisse et la narcose” (capítulo 4- Para compreender as mídias), Marschal Mc Luahn escreve:
“ O jovem Narciso toma por uma outra pessoa sua própria imagem refletida nas águas de um rio. Esse prolongamento de si mesmo num espelho confunde sua percepção ao ponto dele acreditar ser este um mecanismo de sua própria imagem que se prolongava repetidamente. (…) O que há de interessante nesse mito, é que ele mostra que os homens são automaticamente fascinados por uma extensão deles mesmos feita de um material diferente deles.”
Yann Minh observa que “os objetos são extensões de nós mesmos que, amplificam nossas funções psíquicas ou cognitivas provocando um estado de estupefação pela sua própria imagem. Nós somos fascinados pela imagem do cyborg ….E, ainda, como somos humanos, diz ele: sucumbimos ao poder que nos confere as máquinas. Quando dirigimos um carro, prótese dos pés, nós nos achamos tão poderosos que dirigimos pelo simples prazer de correr até a vertigem. Uma vez que os limites do carro aguente - como se a simbiose fosse total. É o que Marshall Mac Luhan chama de “narcose narcísica”, agora eles dominam as máquinas.
Os jogadores de vídeo games, os utilizadores de sextoys, os maníacos por aparelhos fotográficos não são mais ou menos “viciados” em suas próteses que os automobilistas, porque eles exploram os novos mundos que lhes oferecem esses objetos. Eles aprendem a se servir deles. Mas atenção: ” Isso não tem nada a ver com os estados dependentes provocados por certas drogas”, observa Yann Minh. “A diferença entre uma real adicção e a narcose narcísica, é que uma vez observado os limites de nosso corpo com esses objetos tecnológicos, nós saímos deste estado de estupefação sem um domínio cognitivo, pelo contrário, nós “voltamos ao mundo” mais fortes pela nova experiência. Nada mais natural, portanto, que este desejo incessante que temos de amplificar nosso corpo: “o uso de instrumentos sexuais, entre outros, faz parte inerente de nossa humanidade. Porque o humano é - desde sua origem - um cyborg, ou seja, um ser que procura sem cessar se relacionar com objetos que lhe deixem mais bonitos, maiores, mais fortes, mais rápidos …”. Isso nos faz deduzir que os vibradores são indispensáveis?
Não necessariamente, diz Yann Minh. “Esses objetos podem inclusive ter o papel inverso, quase castrador”. Para Yann, grosso modo, os vibradores comuns não oferecem ao seu utilizador uma imagem sublimada dele mesmo. Eles não estimulariam, portanto, a imaginação. Sua forma nos remete a sua função puramente prosaica. Podemos considerar, assim, que o efeito de narcose narcísica ficará relativamente reduzido. Isso explicaria a atração exercida pelas novas tecnologias já que, em matéria de erotismo, os robôs e os mundos virtuais oferecem um terreno bastante fértil à imaginação.
“Os jogos imersivos e interativos online, os mundos oferecidos com suas projeções identitárias em forme de avatares audiovisuais, iconográficos, fotográficos, amplificam os processos cognitivos ligados á sexualidade como a sedução, a exibição, o voyeurismo, o fetichismo, e as essas extensões cognitivas, se unem aquilo que os anglo saxões chamam pelo belo nome de (Teledildonic), que são, basicamente, vibradores tele operados pela Internet via USB, oferecendo estimulação cognitiva e estímulos físicos. Esse conjunto (computadores, mundos virtuais, teledildonics, inúmeras redes sociais) produzem uma máquina complexa para o desempenho sexual e emocional amoroso, uma variedade e complexidade comparável a que produz o automobilismo ou o avião para a motricidade, a foto e o vídeopara a memória, as armas para a guerra. E, de fato, possui muito mais utilizadores, um fenômeno próximo e similar a narcose narcísica, que pode dar uma impressão de adicção.” Yann Minh
Yann Minh sabe alguma coisa sobre mundos virtuais, afinal em 30 de Setembro ele se apresentou em Nancy, para testemunhar sua própria experiência de imersão extrema nos universos virtuais. Ele passou dois anos no Second Life, “de 4h a 12h por dia” e relatou suas conclusões no colóquio “Robots Hybrides Cyborgs” que tratou, entre outros temas, das máquinas de sexo.
Tradução livre do artigo artigo Faut-il avoir peur des godes? , de Agnès Giard.
