Lilith: A mulher-bruxa do ato fundante

O SexoCult conta com uma nova categoria: “convidados”.  Nela serão publicados os textos que recebo por e-mail e, também, artigos de outros autores-pesquisadores, que convidarei para escrever por aqui…, iniciamos a nova sessão com o excelente texto de Kátia Alexsandra dos Santos*.

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Tratar da mulher implica tratar de mim mesma e isso imprime um tom essencialmente confessional ao que me proponho a escrever. O faço ao som de mulheres (Adriana Calcanhoto e Rita Lee) que também me acompanham, inspiram e compartilham comigo da mesma dor e gozo: a de ser mulher. Vendo que não há como fugir, cabe aceitar essa condição, afinal, como já afirmou Virgínia Woolf, “os escritos de uma mulher são sempre femininos; não podem deixar de sê-lo; quanto melhor, mais feminino; a única dificuldade é definir o que entendemos por feminino”.

Quando pensamos (e aí reúno homens e mulheres como um todo) em “mulher” logo nos vêm à cabeça as várias dicotomias que compõem esse signo: frágil/ forte, mãe/amante, submissa/decidida, boa/má, etc. Isso ocorre porque a mulher realmente se constituiu enquanto significante numa relação dicotômica. Partindo de uma bissexualidade, a mulher carrega em si ainda muitos atributos de natureza masculina, que se aliam e incorporam aos de natureza feminina, enquanto para o homem isso é vedado.

O mito de Lilith, a mulher bruxa, serpente, nos remete ao conceito da não-mulher, ou da mulher fora dos padrões cristãos: a mulher traidora, a mãe má, devoradora, sensual, perigosa. É justamente essa feminilidade exacerbada que não é aceita pela sociedade, já que construída a partir da ótica masculina e cristã. Desde sempre, sobretudo pela influência do Cristianismo, temos a figura da mulher constituída a partir de um modelo de submissão, virgindade e maternidade, materializada na figura da Virgem Maria. Lilith é o inverso, a subversão a esse modelo.

Vejamos o que nos diz o mito de Lilith, a “lua negra”:

“Deus criou Lilith, a primeira mulher, do mesmo modo que havia criado Adão, só que usou sujeira e sedimento impuro em vez de pó ou terra. Adão e Lilith nunca encontraram a paz juntos. Ela discordava dele em muitos assuntos e recusava-se a deitar debaixo dele na relação sexual, fundamentando sua reivindicação de igualdade no fato de que ambos haviam sido criados da terra. Quando percebeu que Adão a subjugaria, proferiu o nome inefável de Deus e pôs-se a voar pelo mundo. Finalmente, passou a viver numa caverna no deserto, às margens do Mar Vermelho. Ali, envolveu-se numa desenfreada promiscuidade, unindo-se aos demônios lascivos e gerando, diariamente, centenas de Lilith ou bebês demoníacos.” (BLAK KOLTUV, O Livro de Lilith In: Schmidt: 1997, p. 94.)
Lilith seria, pois, a mulher originária, anterior à própria Eva e, por isso, ainda mais subversiva. Eva nasce da costela de Adão, portanto já de material diferente e é destinada ao homem, daí sua posição submissa original; é criada tão somente para fazer companhia a Adão e servir-lhe. Contudo, ainda se configura como a “perdição” do homem, tendo em vista que é a “culpada” pelo pecado original.

A nossa personagem parece ter sido muito pior e talvez por isso tenha sido banida da “história” dando lugar a Eva, mulher mais amena. Em algumas civilizações o mito de Lilith sobreviveu e ainda sobrevive como símbolo da mulher em seu aspecto mais perigoso, ameaçador, malévolo. Lilith encarna um dos lados da nossa feminilidade. Ela reivindica sua posição de igualdade perante o homem e, não sendo atendida, volta-se contra ele, aliando-se às forças do mal. A continuação do mito nos conta que Adão fica totalmente perplexo com a perda de sua companheira e nutre por ela um sentimento de amor e ódio. O desprezo de Lilith ao primeiro e único homem é que confere o seu poder e sua simbologia de contrariedade ao patriarcalismo.

Lilith é bela, sedutora, encarna em si a pura sexualidade, da qual o homem não consegue fugir. Assim, a mulher-bruxa enreda o homem em suas armadilhas sexuais, mentindo uma submissão, tornando-se objeto para depois aprisioná-lo. É isso que fez Lilith, deixando Adão em total desespero e negando-se a voltar para ele. Diz a lenda também que nossa personagem gera vidas e as mata, come seus filhos (machos) como se quisesse literalmente tomar para si o falo que lhe foi negado. As experiências sexuais de Lilith com demônios são encaradas como “promiscuidade”, o que nos dá a noção exata de até onde pode ir uma mulher. O constructo social de mulher íntegra, moral, aplica-se sobretudo ao aspecto sexual, lugar do poder feminino e, por isso mesmo, do seu maior interdito.

Lilith retorna encarnada em toda mulher que, sendo mulher, não consegue ou não deseja entrar na lógica do desejo masculino, não se contenta e não se permite ser “apenas” dona-de-casa, mãe, esposa fiel e submissa. Lilith é também Medéia, a mãe que mata os próprios filhos da tragédia grega, é Medusa, é Morgana, a bruxa das lendas de cavalaria, enfim, todas as personagens que, escritas por homens, reavivam o mito da mulher do ato fundante.

* Kátia Alexsandra dos Santos é professora de Linguística e Análise do Discurso da UNICENTRO-PR. Autora da Dissertação de mestrado A Heterogeneidade do discurso feminino: mulher-efeito e seus desdobramentos.

2 Comments

  • 15 de fevereiro de 2010 - 18:33 | Permalink

    Este texto é simplesmente genial.

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