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Curiosidades/Notícias Sexualidade

O amor é circunferencial

Uma das atividades que mais gosto de fazer quando estou saturada das coisas da internet – e das “coisas a fazer” na internet – é acessar a internet. Parece contradição, mas nesse caso eu acesso só para ver um ou dois vídeos do TED X e me lembrar que ainda tem gente falando algo que eu ainda não havia escutado. Para mim, isso é tão excitante quanto buscar coisas sobre sexo na rede. A inteligência é afrodisíaca!

Hoje eu acessei um vídeo cujo título falava sobre amor e – para minha alegria – não era aquela abobrinha de sempre. O vídeo de Antonio Veiga, mestre em Psicologia Clínica, me surpreendeu, entre outras coisas, por enunciados do tipo: “só podemos amar a nos mesmos” , “nunca o amor de uma pessoa fica na mão do outro. Nunca alguém pode nos trair, nos abandonar e nos rejeitar. Só nós podemos nos trair, nos abandonar e nos rejeitar e não o outro”. Você anda ouvindo muito isso por aí? Eu não.

O que me deixou ainda mais “pensante” foi a ideia de que “o amor é circunferencial”. O amor é circunferencial! O amor é circunferencial! Circunferencial!

Como assim, circunferencial?

Em uma linguagem clara e simples, sem recursos retóricos e floreios, o palestrante define aquilo que muito pseudo-analista-sexual-erótico-blogueiro-pornográfico-cafajeste-entre outros  tentam defender sem muita clareza, mas com alguma intuição de que algo anda errado com o nosso amor. Talvez porque somos todos, como ele diz, filhos que não aprenderam a amar, porque as ciências e as religiões nos enganaram, nos mentiram e nos ludibriaram sobre a verdadeira natureza do amor.

Quando ele diz que ninguém pode amar o outro, nem trair o outro, nem rejeitar o outro, penso que está aí uma lição que ouvi poucas vezes. O que nos ensinam sempre é “amar o próximo”. Embora já tenha visto muitos se perguntarem: como amar o próximo, se não temos conseguido nos amar com muita dignidade?

Mas, cuidado! A  lição não prega o egoísmo, pelo contrário.  Nas palavras de Veiga, “quanto mais eu saio de mim em direção ao outro, mas eu retorno a mim, me encontro e me realizo. Eu lanço amor, volta amor. É bumerangue.”

O amor é bumerangue! Se você não se ama, o outro não te respeita. Se você não se ama nada poderá voltar pra você.

E daí? Qual é a revelação?

A lição é que a “atividade” que devemos buscar realizar é amar a nós mesmos e respeitar os outros, para que eles possam se amar. Seguir respeitando a “plantinha do meu jardim, respeitando os animais, as águas, respeitando a minha roupa. Amor não é uma coisa dirigida só para um objeto. Isso é o amor incondicional”. Mas, o amor incondicional, diz ele, “não é para o nosso bico”.

O amor é circunferencial e é bumerangue. Exige perfeição nas medidas e perícia na manipulação! Não é para o nosso bico! Ainda.

Antes de assistir o vídeo lembre-se que ele está falando de amor e não de relacionamentos passionais, ciência ou religião. Ou está?

Sexualidade

O ciúme é o oposto do amor

Em minhas raras andanças pelos sebos (o tempo é cruel e não me permite sempre esses prazeres que deveriam ser diários), encontrei um livro interessantíssimo de Emmanuelle Arsan, autora de Emmanuelle,  o livro que acabo de adquirir intitula-se A hipótese de Eros (edição 1975), e foi traduzido por Clarice Lispector.

ciumes

O livro não é atual, certamente, mas seu conteúdo com certeza esta longe de ser ultrapassado, muito pelo contrário.

Um trecho especialmente me chamou a atenção, pelo desprendimento da autora e por suas idéias nada convencionais. Ao tocar a questão do ciúme (tema sempre polêmico e atual) a autora diz o seguinte:

O ciúme

Nada esclarece melhor nossa aptidão em transformar nossos medos em força de caráter do que a lista das mortificações inúteis que nós impomos aos nossos poderes eróticos. O ciúme oferece um exemplo particularmente impressionante e sinistro da iniciação voluntária à solidão. Inconsciência individual ou impostura coletiva, o ciúme quer passar por sabedoria e sagacidade; mas na realidade este delírio maníaco, com todas as obsessões de conservação, é um cálculo de velho, uma reação de perdedor.

O ciúme, com efeito, não é uma força que asseguraria a nossa segurança: o ciúme é uma confissão de inferioridade. Por isto mesmo ele nos coloca em perigo, nos expõe a perdas e golpes, como o fazem todos os gestos apaixonados.

Ser ciumento não é somente ter medo de perder ou dividir alguém que pensamos possuir; significa também que estamos vergonhosamente seguros de que um outro pode lhe dar mais prazer, pode torná-lo mais feliz. O ciúme não é então, como se pretende, um efeito de orgulho: ele é uma humilhação, uma neurose de impotência e de frigidez. Se nós soubéssemos amar, não conheceríamos o ciúme.

Acolher os outros amores do amado, querer amar em profusão para poder amar melhor o seu amante, partir para a descoberta de parceiros e novas experiências eróticas que possam enriquecer a sociedade do casal – todas estas conquistas da imaginação e da audácia sobre o instinto – sem as quais o homem não sairá jamais da infância, ficarão longe de nosso caso alcance durante todo o tempo em que nos recusarmos em chamar por seu nome o nosso medo atávico e suas falsas desculpas.

O oposto do amor

As feridas que esta paixão inflige à beleza do amor já deveriam ter servido para nos abrir os olhos sobre o seu gênio mutilador. Entretanto, uma convenção mais forte do que todo bom-senso continua fazer o ciúme passar não somente por uma virtude, mas também como uma prova insubstituível de amor e uma garantia de sua sinceridade. A frase habitual “se você não tem ciúmes é porque não me ama” traduz uma confusão espontânea (mas alimentada socialmente) entre egoísmo e amor.

Quando analisada honestamente, a conduta ciumenta não aparece nem como um dever nem como um direito, mas como uma escória lamentável da nossa obsessão de possuir. Sob este ponto de vista, o ciúme é o oposto do amor; porque o amor não é uma invenção de nossas faculdades emocionais feita com o objetivo de nos apropriarmos do corpo e do espírito de um outro ser: o amor é uma mutação que nos permitiu sair dos limites traçados pelo caos criador ao corpo e ao espírito isolados. Ele é uma fratura que fizemos nas divisões de nossa natureza, para podermos olhar com outros olhos a pluralidade de suas dimensões. É o amor que salva o nosso consciente do abandono a que ficaria relegado por causa do egotismo conservador e dos fingimentos da linguagem. É o amor quem nos permite escapar do sistema de prestação de contas das coisas, e é ele também quem nos permite fraudar as cotas de intuição e de saber que nos fornecem os mecanismos separadores de nosso cérebro. O amor tira a inteligência do confinamento das células e abre os espaços da poesia. O ciúme fecha sobre nós as portas da solidão.

Emmanuelle Arsan, A hipótese de Eros, Editora artenova, 1975, tradução de Clarice Lispector.

Uma original visão do ciúme e uma surpreendente visão do amor, certamente, mas, me pergunto: quantos entre nós estamos aptos a viver esse amor de Emmanuelle? E quantos sobreviveriam a ele?  Eu não saberia dizer. Aliás, eu ainda não consigo formalizar uma opinião sobre a leitura dessa obra, a não ser o fato de que ela é surpreendente e de que nos paralisa com muitas idéias.

Mas, penso que um livro não precisa ser aceito em todos os seus pontos, nem entendido como um manual para um modo correto de amar, obviamente, sua função é nos fornecer meios para pensarmos sobre o amor e a vida, e é justamente isso que nos convida a pensar a autora, já que, para ela, nós vivemos e amamos com medo de viver e de amar. Segundo ela, “(…) nós amamos com medo: rejeitar é então a nossa maneira de amar. Todos os nossos amores são exclusivos, como os nossos clubes. Nós só nos sentimos verdadeiramente entre nós quando obrigamos alguém a ficar de fora (…).”

E você? O que pensa sobre o amor e o ciúme?

Sexo e Literatura

Amor – pois que é palavra essencial

Considerando o interesse geral de nossos leitores por poemas eróticos, dedicamos o artigo de hoje a um dos mais ilustres poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, e sua lindíssima obra O amor Natural .

Abaixo alguns recortes (escrever todos os poemas é sacanagem – mas não sacanagem boa) desta obra que vale muito ser lida por inteiro, ser guardada, vigiada, relida, emprestada e resgatada para garantia de gozos literários futuros.

sex_in_art

Amor – pois que é palavra essencial
(…)
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

bunda

A Bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
Pela frente do corpo. A bunda basta-se.
(…)

telesexo

À meia-noite, pelo telefone,
conta-me que é fulva a mata do seu púbis.
Outras notícias do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
“Se você não vem depressa até aqui
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?”
Concordo, calo-me.

Certamente o livro tem outros poemas e se dedica a transformar práticas sexuais orais, anais, e outras mais românticas, em um livre exercício de desprendimento literário.  Para facilitar a aquisição listamos abaixo alguns sebos onde pode-se encontrar a obra.  A primeira edição é mais cara, mas contém ilustrações de Milton DaCosta.

Estante Virtual
Sebo do Marcao

Obs: As imagens deste artigo foram retiradas do site Sex In Art.

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