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12 ago 2009

O ciúme é o oposto do amor

Em minhas raras andanças pelos sebos (o tempo é cruel e não me permite sempre esses prazeres que deveriam ser diários), encontrei um livro interessantíssimo de Emmanuelle Arsan, autora de Emmanuelle,  o livro que acabo de adquirir intitula-se A hipótese de Eros (edição 1975), e foi traduzido por Clarice Lispector.

ciumes

O livro não é atual, certamente, mas seu conteúdo com certeza esta longe de ser ultrapassado, muito pelo contrário.

Um trecho especialmente me chamou a atenção, pelo desprendimento da autora e por suas idéias nada convencionais. Ao tocar a questão do ciúme (tema sempre polêmico e atual) a autora diz o seguinte:

O ciúme

Nada esclarece melhor nossa aptidão em transformar nossos medos em força de caráter do que a lista das mortificações inúteis que nós impomos aos nossos poderes eróticos. O ciúme oferece um exemplo particularmente impressionante e sinistro da iniciação voluntária à solidão. Inconsciência individual ou impostura coletiva, o ciúme quer passar por sabedoria e sagacidade; mas na realidade este delírio maníaco, com todas as obsessões de conservação, é um cálculo de velho, uma reação de perdedor.

O ciúme, com efeito, não é uma força que asseguraria a nossa segurança: o ciúme é uma confissão de inferioridade. Por isto mesmo ele nos coloca em perigo, nos expõe a perdas e golpes, como o fazem todos os gestos apaixonados.

Ser ciumento não é somente ter medo de perder ou dividir alguém que pensamos possuir; significa também que estamos vergonhosamente seguros de que um outro pode lhe dar mais prazer, pode torná-lo mais feliz. O ciúme não é então, como se pretende, um efeito de orgulho: ele é uma humilhação, uma neurose de impotência e de frigidez. Se nós soubéssemos amar, não conheceríamos o ciúme.

Acolher os outros amores do amado, querer amar em profusão para poder amar melhor o seu amante, partir para a descoberta de parceiros e novas experiências eróticas que possam enriquecer a sociedade do casal - todas estas conquistas da imaginação e da audácia sobre o instinto - sem as quais o homem não sairá jamais da infância, ficarão longe de nosso caso alcance durante todo o tempo em que nos recusarmos em chamar por seu nome o nosso medo atávico e suas falsas desculpas.

O oposto do amor

As feridas que esta paixão inflige à beleza do amor já deveriam ter servido para nos abrir os olhos sobre o seu gênio mutilador. Entretanto, uma convenção mais forte do que todo bom-senso continua fazer o ciúme passar não somente por uma virtude, mas também como uma prova insubstituível de amor e uma garantia de sua sinceridade. A frase habitual “se você não tem ciúmes é porque não me ama” traduz uma confusão espontânea (mas alimentada socialmente) entre egoísmo e amor.

Quando analisada honestamente, a conduta ciumenta não aparece nem como um dever nem como um direito, mas como uma escória lamentável da nossa obsessão de possuir. Sob este ponto de vista, o ciúme é o oposto do amor; porque o amor não é uma invenção de nossas faculdades emocionais feita com o objetivo de nos apropriarmos do corpo e do espírito de um outro ser: o amor é uma mutação que nos permitiu sair dos limites traçados pelo caos criador ao corpo e ao espírito isolados. Ele é uma fratura que fizemos nas divisões de nossa natureza, para podermos olhar com outros olhos a pluralidade de suas dimensões. É o amor que salva o nosso consciente do abandono a que ficaria relegado por causa do egotismo conservador e dos fingimentos da linguagem. É o amor quem nos permite escapar do sistema de prestação de contas das coisas, e é ele também quem nos permite fraudar as cotas de intuição e de saber que nos fornecem os mecanismos separadores de nosso cérebro. O amor tira a inteligência do confinamento das células e abre os espaços da poesia. O ciúme fecha sobre nós as portas da solidão.

Emmanuelle Arsan, A hipótese de Eros, Editora artenova, 1975, tradução de Clarice Lispector.

Uma original visão do ciúme e uma surpreendente visão do amor, certamente, mas, me pergunto: quantos entre nós estamos aptos a viver esse amor de Emmanuelle? E quantos sobreviveriam a ele?  Eu não saberia dizer. Aliás, eu ainda não consigo formalizar uma opinião sobre a leitura dessa obra, a não ser o fato de que ela é surpreendente e de que nos paralisa com muitas idéias.

Mas, penso que um livro não precisa ser aceito em todos os seus pontos, nem entendido como um manual para um modo correto de amar, obviamente, sua função é nos fornecer meios para pensarmos sobre o amor e a vida, e é justamente isso que nos convida a pensar a autora, já que, para ela, nós vivemos e amamos com medo de viver e de amar. Segundo ela, “(…) nós amamos com medo: rejeitar é então a nossa maneira de amar. Todos os nossos amores são exclusivos, como os nossos clubes. Nós só nos sentimos verdadeiramente entre nós quando obrigamos alguém a ficar de fora (…).”

E você? O que pensa sobre o amor e o ciúme?

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12 agosto, 2009 em 14:24 porJulia Tenório

Tags: amor, ciume, desejo, emanuelle, emmanuelle_arsan, eros, livro, sexo, Sexo e Literatura, traiçao
Publicado em Sexualidade | 5 Comments »

21 jul 2009

Amor - pois que é palavra essencial

Considerando o interesse geral de nossos leitores por poemas eróticos, dedicamos o artigo de hoje a um dos mais ilustres poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, e sua lindíssima obra O amor Natural .

Abaixo alguns recortes (escrever todos os poemas é sacanagem - mas não sacanagem boa) desta obra que vale muito ser lida por inteiro, ser guardada, vigiada, relida, emprestada e resgatada para garantia de gozos literários futuros.

sex_in_art

Amor - pois que é palavra essencial
(…)
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

bunda

A Bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
Pela frente do corpo. A bunda basta-se.
(…)

telesexo

À meia-noite, pelo telefone,
conta-me que é fulva a mata do seu púbis.
Outras notícias do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
“Se você não vem depressa até aqui
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?”
Concordo, calo-me.

Certamente o livro tem outros poemas e se dedica a transformar práticas sexuais orais, anais, e outras mais românticas, em um livre exercício de desprendimento literário.  Para facilitar a aquisição listamos abaixo alguns sebos onde pode-se encontrar a obra.  A primeira edição é mais cara, mas contém ilustrações de Milton DaCosta.

Estante Virtual
Sebo do Marcao

Obs: As imagens deste artigo foram retiradas do site Sex In Art.

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21 julho, 2009 em 0:05 porJulia Tenório

Tags: amor, bunda, carlos_drummond_de_andrade, gozo, o_amor_natural, poemas_eróticos, poesia, pornô, sebo, sexo, Sexo e Literatura, tele_sexo, vagina
Publicado em Sexo e Literatura | 1 Comment »

9 mai 2009

Ter um orgasmo ou gozar? eis a questão! (parte 1)

Em seu último post,  Agnés Giard aborda as discussões que envolvem os diferentes lados da questão em torno do prazer sexual feminino.

gozo

Segundo a autora, alguns sexólogos afirmam que o orgasmo não é necessário em toda relação (talvez para tranquilizar algumas mulheres que não conseguem nunca desfrutar deste prazer).  É um discurso tranquilizador, mas é verdadeiro?

gozo1

Segundo a autora, o sexólogo Pascal Sutter salienta que para algumas pessoas a alegria está vinculada ao prazer sexual.  Para serem felizes elas precisam se satisfazer sexualmente sempre, nesse caso a abstinência sexual aumentaria o risco de depressão, já que não é possível obter um ”orgasmo” sempre.

Existe uma explicação neuroquímica para que alguns associem sexo e alegria que está ligada a produção de endorfinas: estas substâncias contribuem para proporcionar uma sensação de bem-estar e tem efeito tranquilizador semelhante ao produzido por algumas drogas como o Valium, por exemplo.

Mas, para se eximir talvez de um discurso de culpa, o sexólogo dirá que o desempenho sexual não é sinônimo de felicidade. E, todos podem respirar aliviados!

Mas, será possível ser feliz sem colocar o orgasmo na lista de obrigações ?

A autora apresenta em seu texto a  tese central do livro do ergo terapeuta francês Jean-Claude Piquard, intitulado “Les deux êxtases sexuelles” (os dois prazeres sexuais), no qual o autor  explica a diferença entre o orgasmo e o gozo “com uma precisão luminosa”.

“Enfim, gozo e orgasmo explicados!” pela literatura.

Para Piquard, quando algumas mulheres dizem que nunca tiveram a experiência do orgasmo, elas não sabem exatamente do que falam.

“Se soubessem, talvez, o teriam com mais facilidade? o grande problema neste momento é que os discursos sobre a sexualidade carecem de maior precisão”.

O livro coloca ainda que há um discurso dominante que aponta que “falamos demais sobre sexo”, “que o sexo está todo o tempo nos cartazes, na televisão, nas revistas”, “que existe uma ditadura do sexo”.  Mas, o autor dirá que isto evidentemente não é verdade. Existe apenas um conteúdo vazio sobre a sexualidade que circula para satisfazer (de maneira não muito boa aliás)  a demanda da sociedade por este tema.

O problema atual não é, portanto, que só falamos em sexo (como dizem alguns), mas justamente que falamos muito mal:  “nós temos a impressão que falamos muito, talvez porque falamos mal, criticando ou vulgarizando com obscenidades, sem procurar as palavras certas, ou mais justas, ou mais explicativas.

O autor salienta, ainda, que após um longo período de interdição em torno de assuntos como a masturbação, por exemplo, criou-se um imaginário coletivo que dissocia o coito e o orgasmo de carícias íntimas. Assim, sexo sem carícias resulta em muitas mulheres insatisfeitas sexualmente e desconhecedoras do que é, realmente,  “gozar” ou se satisfazer sexualmente.

Conclusão: Fala-se muito e mal da sexualidade.  Nós nem sequer conhecemos o verdadeiro sentido da palavra orgasmo. Não é, portanto, admirável que não saibamos como obter um, diz o autor.

A definição de orgasmo é vaga e subjetiva, completamente batida….

Obs: Devido ao tamanho do texto e o meu tempo hoje,  continuaremos a tradução deste post interessantíssimo amanhã, acompanhem a continuaçao que irá estabelecer as diferenças entre o orgasmo feminino e masculino de modo bastante diferente e peculiar…

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9 maio, 2009 em 17:22 porJulia Tenório

Tags: agnés_giard, discurso, êxtase_sexual, gozar, gozo, Jean_claude_piquard, orgasmo, orgasmo_feminino, pascal_sutter, prazer, satisfaçao_sexual, sexo, Sexo e Literatura
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