Repercute na França o caso do filme Histories de Sexe (s) , que foi rebaixado para a categoria de filme pornô.

Para os puritanos a ação pode até parecer correta, mas não passa de uma medida imprópria para o filme em questão.
Histories de Sexe(s) é uma comédia leve que trata de sexualidade, inspirada no declínio do império americano. É a história de quatro amigas que se encontram para falar de suas últimas aventuras e de seus problemas amorosos. Paralelamente, quatro homens se encontram também para falar de sexo e conferem uma nova versão à história: homens e mulheres tem visões diferentes sobre o temas, obviamente. A “dupla” visão do filme é garantida por que seus diretos são um homem e uma mulher.
Segundo relatos de quem assistiu ao filme (eu ainda não vi, infelizmente), ele contém algumas cenas hilariantes e outras extremamente pedagógicas que abordam o tema do orgasmo, dos sextoys, da ejaculação feminina (parece ótimo né??).
Sendo considerado uma mistura de documentário, ficção e curso de sexologia, o filme certamente não merece a classificação X.
Os diretores do filme, Ovidie e Jack Tyler, protestam (aqui) contra a decisão afirmando que o filme tem a “ambição de superar as regras da indústria pornô” e que eles esperavam que com o filme sairiam das ruas (do gueto)”.
No entanto, eles foram reenviados secamente para a margem do cinema com esta decisão. Segundo os diretores
“um filme é considerado pornô quando apresenta qualquer script, não tem trabalho de preparo, por ser distante de uma sexualidade realista e, na maioria das vezes, degradar a mulher. Com este filme, dizem os diretores, encarou-se o desafio de apresentar uma sexualidade não caricatural e de colocar em cena a complexidade da relação do casal. Habitualmente, os cenários dos filmes pornôs servem apenas para introduzir as cenas de sexo que são a razão principal dos filmes pornográficos. Em Históries de Sexe(s), as curtas passagens explicitas não são mais do que ilustração das declarações feitas pelos próprios protagonistas. 95% de diálogos e 5% de sexo, e não o inverso. Claramente, não se trata de um filme masturbatório. Com este filme, nós atendemos a emergência de um novo gênero: um filme que trata abertamente da sexualidade, livre dos códigos da pornografia e de sua cota de ejaculações faciais. Nosso desejo não era que passasse para menores, porque estávamos exigindo a proibição para menores de 18 anos.”
Acredita-se, portanto, que a comissão CNC classificou o filme como pornô porque seria impensável para os puritanos, que parecem ser sempre a maioria, que um filme possa falar abertamente de sexo. Podemos falar de morte, de assassinatos em série, do fim do mundo, de guerra (principalmente de guerra), mas não podemos falar de sexo. A classificação do filme como pornô é uma forma perversa de censura. Ela vem acompanhada de um sistema de taxas e impostos que desestimula as pessoas a movimentarem dinheiro e, consequentemente, condenam os filmes sobre o tema a produções de baixa qualidade, amadorismo, diálogos irreais. Assim, totalmente estigmatizado os “bons” diretores não se arriscam nessas produções, pelo risco de sofrerem a censura no interior do mercado cinematográfico.
Segundo afirma Agnes Giard
…na França a classificação dos filmes como pornôs (ou como filmes X) foi uma tentativa de originalmente voltada para a liberdade, que visava permitir o uso de imagens de sexo nos filmes, mas rapidamente esta classificação passou a ser acompanhada por duras medidas fiscais que acabaram “matando no ninho um gênero cinematográfico nascente”. Sem recursos, esta categoria de filmes torna-se uma indústria que acumula genitálias em grande plano e atos sexuais como norma fundamental. Os filmes precursores do gênero anunciavam o glorisoso futuro da categoria: O último tango em Paris, O império dos sentidos, Mistress, O love Max, GOing Places, The mother and the wore, The Nigth Porter…poderia ter se tornado tao importante quanto os filmes de artes marciais ou as comédias musicais. No entanto ele foi assassinado. Cortaram-se seus recursos e ele foi condenado a mediocridade.
Proibições como a sofrida pelo Histoires de Sexe(s), somadas à força da TV, DVD, e da Internet, acabam por condenar de vez as ambições de quem desejava fazer arte com sexo…Afinal, quem vai querer fazer um filme de 3 milhões de reais (o valor mínimo de uma produção) se as produções da Internet, por exemplo, podem ser realizadas (sem sofrer censura da indústria) com apenas 3 mil euros?.
Para Ovidie o pornô agora é “a merda”. No lugar de mostrar o sexo como um espaço de liberdade e felicidade, o pornô mostra performances surrealistas e caricaturais.” Para o diretor, voltar às salas de cinema permitiria ao gênero sua saída do “gueto”, mas o CNC “desde 1975, como se os meios não tivessem evoluído, continua a classificar como pornô tudo o que ultrapassa o limiar de sua tolerância: um orgasmo vá lá. Dois orgasmos, prejuízo.
- Visite o site do filme e assista o trailer oficial: Histoires de Sexe(s)
- Adaptação livre do artigo de Agnès Giard.